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JUNTAS EM PISOS INDUSTRIAIS DE CONCRETO
Há, na literatura técnica, uma grande lacuna no que
se refere ao projeto de juntas. Com o objetivo de reduzir
esta deficiência, este trabalho apresenta critérios para
dimensionamento e desenvolvimento do projeto geométrico
das juntas, principais tipos empregados em pisos industriais
e pavimentos estruturalmente armados, e dimensionamento
dos dispositivos de transferência de cargas. Aborda também
critérios para o controle da qualidade de execução e recebimento
das juntas.
Ao longo do tempo, o aumento dos carregamentos e, conseqüentemente,
das tensões nos pisos industriais vem preocupando os profissionais
da área. Soluções de dimensionamento têm sido estudadas,
porém todas elevam a responsabilidade das juntas, pelo
fato de que o aumento das cargas leva ao aumento das tensões
nas juntas e das deformações dos pisos industriais. Várias
alternativas para elevar a eficiência nas transferências
de carga entre placas de concreto foram experimentadas,
tais como espessamento das bordas das placas, juntas com
encaixes do tipo macho-e-fêmea com ou sem barras de ligação,
aumento da capacidade de suporte da sub-base, juntas com
utilização de barras de transferência ou barras de ligação
e outras. Função das juntas
Todo piso industrial em concreto está sujeito a tensões
devido a diversas causas, como retração do concreto,
retrações e dilatações causadas por variações térmicas
ou higrotérmicas, empenamento das placas e carregamento
- seja ele estático (cargas distribuídas ou pontuais,
como as de prateleiras) ou móvel (empilhadeiras de rodas
pneumáticas ou rígidas). Parte dessas tensões provoca
uma sensível redução da vida útil do pavimento, caso
não sejam devidamente consideradas (ERES Consultants,
1996). O projeto deve prever dispositivos, detalhes
construtivos, reforços estruturais e especificações
de materiais adequados a cada tipo de solicitação.
Dentre estes dispositivos ou detalhes construtivos estão
as juntas, definidas como um "detalhe construtivo
que deve permitir as movimentações de retração e dilatação
do concreto e a adequada transferência de carga entre
placas contíguas, mantendo a planicidade, assegurando
a qualidade do piso e o conforto de rolamento".
É importante ressaltar que as juntas devem permitir
a adequada transferência de carga entre placas contíguas.
Pode-se avaliar pela figura 1 as condições de trabalho
das juntas.

Quando se tem uma carga na proximidade da borda, existe
uma deformação natural da placa de concreto do piso
proporcional à magnitude da carga, espessura da placa,
módulo de elasticidade dos materiais envolvidos e condições
de suporte da placa, gerando a descontinuidade da superfície
do piso, alterando as condições de rolamento, conforto
e segurança.
Na figura 1 pode-se notar a existência de uma patologia
na placa da direita, devido à passagem da roda do veículo.
Este problema, conhecido como esborcinamento das bordas,
é comum em pisos que não possuem a adequada transferência
de carga, como demonstrado na figura 2.

A recomendação prática para placas de concreto simples
é de que a relação entre largura e comprimento seja
de 1:1,5. Existem organismos internacionais que sugerem
placas ainda menores, como por exemplo a relação de
1:1,25, ou seja, para placas com largura de 3,6m têm-se
comprimentos de 4,5m.
Para os pavimentos armados esta relação fica por conta
das questões executivas.
Pode-se notar pela figura 2 que, quando há adequada
transferência de carga através de um dispositivo devidamente
dimensionado (ver item 5 - Dimensionamento dos Mecanismos
de Transferência de Carga), preparado e posicionado,
tem-se assegurada a durabilidade do piso de concreto.
Tipos de juntas
Para os pisos industriais, poucos são os tipos de juntas
necessárias para que se tenha sucesso na realização
da obra. As juntas podem ser classificadas em:
. junta longitudinal de construção (JC)
- são as juntas construtivas de um pavimento, sendo
que o seu espaçamento está limitado pelo tipo de equipamento
utilizado, geometria da área e índices de planicidade
a serem obtidos. As juntas de construção podem possuir
encaixes do tipo macho-e-fêmea ou utilizar barras de
transferência (figura 3). As do tipo macho-e-fêmea têm
sido menos empregadas devido à sua baixa capacidade
de transferência de carga, dificuldades executivas e
principalmente grande ocorrência de fissuras próximas
das bordas. Este tipo de dispositivo de transferência
de carga não deve ser utilizado para pisos com espessura
menor do que 15 cm.

A figura 3 apresenta a seção típica de uma junta de
construção com uso de barras de transferência. É importante
destacar o posicionamento das barras de transferência
e da tela soldada.
. junta serrada (JS) - o processo construtivo
utilizado atualmente prevê a concretagem em faixas limitadas
em sua largura pelas juntas longitudinais de construção.
Logo após o processo de acabamento do concreto, deve-se
iniciar o corte das juntas transversais de retração,
também conhecidas como juntas serradas (figura 4). Um
grande desafio das empresas que executam este tipo de
obra é a determinação do melhor momento de início deste
processo. Em geral, este tempo é cerca de 10 horas após
o lançamento do concreto, porém, existe uma grande variação,
de acordo com o tipo de cimento, temperatura ambiente,
relação água/cimento, tipos e dosagem de aditivos, ventos
e outros fatores externos.
O corte deve ter (Rodrigues & Cassaro, 1998) profundidade
da ordem de 1/3 da espessura da placa, recomendando-se
no mínimo 40mm. A figura 4 apresenta seção transversal
típica.

. junta de expansão (JE) - são fundamentais
para isolar o piso das outras estruturas, como vigas-baldrames,
blocos de concreto, bases de máquinas ou outras (figura
5). Esta é uma premissa que faz com que o piso trabalhe
independente das outras estruturas existentes. Nos casos
de pilares e pequenas aberturas nos pisos, normalmente
se utiliza a solução apresentada na figura 6, também
conhecida como junta tipo diamante.


A utilização de junta de expansão entre placas, também
conhecida como junta de dilatação (JD), não é usual
em pisos industriais, ocorrendo apenas em situações
especiais, como mudança de direção de tráfego, fato
comum em docas de recebimento de materiais. Este detalhe
construtivo é muito semelhante ao da junta de construção,
sendo necessário prever um capuz no final da barra de
transferência com folga aproximada de 20mm (figura 7).

Mecanismos de transferência de carga
A necessidade dos mecanismos de transferência de carga
fica evidente diante das tensões que ocorrem devido
à posição da carga em relação às juntas, conforme apresentado
na figura 8.

A carga no interior da placa (posição 2) é a que apresenta
a menor solicitação, enquanto a localizada na borda
longitudinal livre (posição 3) é a que apresenta a maior
solicitação. Para efeitos comparativos, pode-se dizer
que se o momento gerado pela carga na posição 1 for
igual a 1,0, essa mesma carga produzirá na posição 2
um momento igual a 0,7 e na posição 3 um momento igual
a 1,4. Portanto, caso não sejam previstos mecanismos
de transferência de carga nas juntas, de forma a garantir
a continuidade do pavimento, o dimensionamento deveria
ser efetuado pela posição de carga mais desfavorável.
Esse procedimento acabaria por gerar pisos de espessuras
elevadas e antieconômicas, além de não garantirem a
imobilidade vertical necessária.
Modernamente, os pisos são dimensionados de modo a garantir
a continuidade nas juntas, isto é, dotando-as de mecanismos
eficientes, permitindo que o dimensionamento seja feito
considerando a carga atuando longe das bordas livres.
Os mecanismos mais comuns são as barras de transferência,
empregadas tanto nas juntas longitudinais de construção
ou serradas como nas juntas transversais serradas; outro
tipo são as juntas macho-e-fêmea, empregadas nas juntas
longitudinais de construção e apresentadas no item 3.
O tipo mais comum é constituído pelas barras de transferência
em função da praticidade e da eficácia que ele permite.
O sistema macho-e-fêmea deve ser evitado devido à sua
baixa eficiência em aplicações industriais (ACI, 1996).
Neste sistema, a transferência de carga depende da união
entre as duas faces da junta; nos pavimentos rodoviários,
essa união é garantida por barras de ligação. Nos pisos
industriais não é possível o emprego desse recurso,
o que restringiria os movimentos de retração da placa,
com conseqüente descolamento das faces, tornando o sistema
ineficiente (figura 9).

Existem outros mecanismos de transferência que podem
ser considerados, como pelo entrosamento dos agregados,
mas sua eficiência depende de uma abertura máxima de
juntas inferior a 1mm (ACI, 1996), limitando o comprimento
da placa em poucos metros. Outro sistema, composto por
chapas planas em formato triangular (Walker & Roland,
1998), pode ser empregado em juntas de construção, estando
em estágio experimental de utilização. Sua principal
vantagem é permitir o movimento horizontal da placa
em duas direções, ortogonal e paralela ao seu eixo principal.
Embora as barras de transferência sejam as preferidas
nos pisos industriais, é importante salientar que sua
eficiência é inversamente proporcional à folga com o
concreto; práticas como envelopar com mangueira, plásticos
ou papel ou mesmo retirar as barras para facilitar a
remoção das formas são condenáveis, pois facilitam em
demasia a perda da qualidade da junta.
Dimensionamento das barras de transferência
As barras de transferência têm o seu desempenho
ditado por dois parâmetros principais: o espaçamento
e o diâmetro das barras. Secundariamente, é função também
da abertura da junta (Yoder & Witczak, 1975). É
prática comum o emprego do espaçamento fixo, geralmente
30cm, e diâmetro conforme a espessura do piso (Rodrigues
& Cassaro, 1998).
A tabela 1 permite que o diâmetro da barra seja adotado
com relativa facilidade. Entretanto, deve-se lembrar
que o seu estabelecimento foi feito com base em pisos
e pavimentos de concreto simples, isto é, aqueles em
que os esforços atuantes são resistidos apenas pela
resistência à tração na flexão do concreto.
Tabela 1
Espessura da placa (mm) |
Diâmetro da barra (mm) |
Comprimento da barra (cm) |
Espaçamento (cm) |
| 125 |
16 |
40 |
30 |
| 150 |
20 |
40 |
30 |
| 200 |
25 |
46 |
30 |
| >
250 |
32 |
46 |
30 |
Modernamente, com o aprimoramento dos processos de
cálculo e o advento de novas tecnologias, tem-se observado
expressiva redução nas espessuras dos pisos industriais
- por exemplo, 15cm onde antes eram necessários 24cm.
As tensões atuantes nas barras de transferência estão
intimamente ligadas à espessura da placa, através do
raio de rigidez relativo l
:
onde:
E = módulo de elasticidade do concreto
h = espessura da placa de concreto
v = coeficiente de Poisson do concreto, tomado
como 0,15
k = coeficiente de recalque da fundação
Para avaliar a influência do raio de rigidez relativo
na força aplicada nas barras de transferência, pode-se
comparar, por exemplo, uma carga P aplicada
em uma junta, exatamente no alinhamento de uma barra
de transferência. A tendência natural é que essa força
distribua-se com maior intensidade na barra em seu alinhamento,
enquanto as barras adjacentes recebem um esforço menor,
proporcional à distância em que se encontram do centro
de aplicação de cargas. A influência da carga se fará
sentir até uma distância igual a 1,8 vez o raio de rigidez
relativo. Portanto, quanto maior ele for, mais barras
estarão repartindo o esforço aplicado.
Com base na figura 10, pode-se ter os seguintes esforços
aplicados, quando a carga estiver posicionada no interior
da placa.

a = 1
b1 = c1, b2 = c2,
... bn = cn
bn = 1 - (n . x
/ 1,8 l)
onde:
n = número da barra
x = espaçamento entre barras
l = raio de rigidez
O esforço atuante na barra mais solicitada, situada
imediatamente abaixo da carga, considerando a junta
com 100% de eficiência, será:
Pa = 0,5P / {[1 + [2 .
(b1 + b2 + ... + bn)]}
onde:
P = carga aplicada (kgf)
Quando a barra se situa mais próxima a uma borda livre,
o esforço atuante na barra mais solicitada será:
Pa = 0,5P / [1 + (b1
+ b2 + ... + bn)]
onde:
P = carga aplicada (kgf)
A análise das duas expressões permite de imediato
perceber que a barra mais solicitada estará sempre próxima
a uma borda livre. Quando houver mais de uma força atuando
na junta, o efeito nas barras deve ser superposto. Esse
modelo, proposto por Friberg (Yoder & Witczak, 1975),
admite que a placa de concreto seja absolutamente rígida
e, portanto, o subleito acaba não recebendo esforços,
o que, na realidade, não ocorre; logo, as cargas nas
barras assim avaliadas acabam sendo maiores do que o
calculado.

Vamos supor, por exemplo, uma junta com barras espaçadas
a cada 30cm, com eficiência de 100%, isto é, que distribui
igualmente os esforços nos dois lados da junta, e carga
P aplicada coincidentemente no eixo de uma
barra. Se l = 80cm, a barra
mais solicitada estará recebendo um esforço equivalente
a 0,05P; se l = 0,50cm, o
esforço será 0,08P, ou seja, 60% maior do que
na placa mais rígida.
Quando uma carga Pa atua em uma
barra imersa no concreto, conforme mostra a figura 11
(Huang, 1993), apresenta-se a seguinte rigidez:

onde:
K = módulo de suporte da barra de transferência
(podendo ser considerado = 0,41.106MPa/m)
E = módulo de elasticidade do aço (210GPa)
b = diâmetro da barra de transferência (cm)
I = momento de inércia da barra de transferência
A deformação y (m) da barra é dada por:
y = Pa a, onde
a = (2 + z b) / (4b 3EI)
(ver tabela 2) e z é a abertura da junta.
A tensão de apoio no concreto (MPa) é imediata:
s = Ky
A análise das expressões indica que a deformação e
a tensão, fixadas as propriedades geométricas e mecânicas
da barra, irão variar com a abertura da junta. Por exemplo,
a tensão de apoio (barra de 20mm) em uma junta de dilatação
pode ser de 10% (abertura de 10mm) a 25% (abertura de
25mm) maior que numa junta de retração (abertura de
4mm).
Nas juntas serradas, a abertura é função da retração
hidráulica do concreto, dimensões das placas e do tipo
de piso empregado; por exemplo, os pisos estruturalmente
armados apresentam menor abertura de junta em função
da restrição imposta pelas armaduras.
A tensão de apoio admissível é determinada pela expressão
(adaptada de Huang, 1993):
s adm = [(10 - b)
/ 7,5] . fck
No caso dessa tensão ser ultrapassada, ocorrerá o esmagamento
do concreto em contato com a barra, com o conseqüente
aumento da deformação. Uma vez ultrapassado o valor
da deformação que ocorre para a carga situada no inerior
da placa, a borda passa a ser mais solicitada, devido
à perda de eficiência da junta.
O processo de degradação passa a ser contínuo, pois
a sub-base é mais solicitada, perdendo capacidade de
suporte e aumentando a deformação na junta até que ocorra
o colapso estrutural.
Cuidados no projeto geométrico
Tão importante quanto o dimensionamento da seção
transversal, o projeto geométrico deve ter alguns cuidados
que permitam a execução da obra, garantam a durabilidade
do piso, reduzam o custo de manutenção e, ainda, assegurem
a perfeita utilização, de acordo com o tipo de equipamento
a ser utilizado.
Seguem abaixo alguns dos cuidados básicos a serem seguidos:
. a largura da faixa de concretagem deve ser consistente
com os índices de planicidade exigidos para o uso do
piso;
. no caso de haver cargas de prateleiras ou estantes,
recomenda-se que as juntas longitudinais de construção
sejam paralelas com a estante e distantes cerca de 15
cm dos montantes;
. as juntas devem ser alinhadas aos cantos internos
do piso (figura 12);
. o comprimento de um trecho de junta de construção
ou serrada deve ser no mínimo igual a 50cm de comprimento
(figura 13);
. prever ângulos de encontro entre juntas sempre maiores
do que 90º (figuras 13);
. uma junta de construção ou serrada deve sempre encontrar
uma curva em ângulo igual a 90º (figuras 13 e 15);
. uma junta de construção ou serrada não pode terminar
em outra junta de construção ou serrada, sempre deverá
terminar em uma junta de expansão (figura 14).



Selantes
O mercado oferece uma vasta gama de materiais para
preenchimento de juntas, tanto moldados in loco como
pré-moldados, sendo estes menos utilizados em função
da pouca praticidade que oferecem. A preferência é dada
aos moldados in loco, geralmente constituídos por poliuretano
ou asfalto modificado, mono ou bicomponentes, havendo
também a família dos silicones. Entretanto, quando é
previsto o tráfego de veículos de rodas rígidas, notadamente
as de pequeno diâmetro, os únicos selantes capazes de
apresentar adequado suporte às tensões geradas nas bordas
da junta são o polissulfeto, uretano e epóxi bicomponente.
A dureza desses materiais deve ser de no mínimo 80 (Shore
A) e devem ter teor de sólidos de 100% (ACI, 1996).
Controle da qualidade - recebimento
As juntas do piso deverão obedecer, no mínimo, aos
seguintes requisitos:
. as barras de transferência devem ser posicionadas
de modo que o desvio máximo com relação ao espaçamento
de projeto seja inferior a 25mm;
. o alinhamento das juntas construtivas não deve variar
mais do que 10mm ao longo de 3m;
. nas juntas serradas, a profundidade do corte não deve
variar mais do que 5mm com relação à profundidade de
projeto. |
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